Última orgia
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  • Abrem o paraíso, acendem a loucura
    os nosso sensos desmesurados. Vamos
    entre luzes ofuscantes, densas cores
    em êxtase chamando os deuses.
    Falam dentro de nós, livres,
    ébrios os pequenos duendes da floresta
    nos induzem a um canto, a um ritmo
    fora do tempo e fora das ânsias.
    É a última orgia do planeta.
    Quem de nós se lembra dos limites?
    É proibido as ordens que recebemos.
    Não é ilusão a apoteose dos sensos.
    Continuemos, nada nos faça parar
    as divindades pagãs, desçam conosco
    e se realize a maior de todas as estórias
    sempre e somente medida pelos excessos.
    Cada dia vivemos todas as estações
    é água que brota e jorra aos nossos pés
    todos os animais: do jaguar à preguiça
    aos milhões em uma algazarra imensa.
    Dentro nos fazem frenéticos, vivos.
    No dia seguinte transformados os pensamentos
    idéias alucinadas do grande baile
    brilhos de pedras, mantos de plumas
    animais correm na memória sem parar.
    A festa è realidade, o inconsciente é estória e ritual.
    Estão presentes todos, de todas as idades
    frutas e flores, vida e morte e a força
    do instinto acompanham o idílio.
    Carnaval continua: riso e pranto
    embriagar-se, fazer amor na praça
    na fúria do baile alguém nos pode assaltar.
    A faca traspassa o coração do inimigo
    a vingança se repete, mas o ritmo é mais forte.
    Tudo è presente: o horror e o prazer dos sonhos
    a tempestade, a chuva, as praias,
    imagens de antigos deuses,
    o desejo alucinado finalmente saciado,
    em mulher o corpo do homem se transforma,
    a saudade afina os instrumentos
    (violão, oboé, tambores,
    pandeiro, berimbau, atabaques)
    os sentimentos movem nossos corpos.
    Um rio caudaloso são as nossas vozes
    que cantando arrastam tudo:
    as máscaras, os carros, a serpente sinuosa dos corpos.
    Uma luz incerta tinge o crepúsculo,
    e o sol junto às suas sombras
    segue o frevo, o samba, a canção
    o enredo, o batuque, a viola.
    Tudo continua, não se conhece pausa:
    primavera, outono e inverno aqui è verão,
    fluidos o vestido e os pés, o riso do rosto,
    vamos criaturas de todas as raças e cores,
    trazendo nos corpos céus, florestas, rios.

    Márcia Theóphilo – 1987