CLI-CLXIII
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  • CLI

    milhares de meninos
    invadem a cidade
    racham o asfalto seus passos
    fendem o cimento suas vozes
    nas brechas germinam ramos
    crescem arvores
    espalham-se pelo ar em vôo
    nuvens, remoinhos, arco-íris
    de pássaros

    CLII

    crescem as árvores
    as palmeiras e o vento
    estórias do equador
    vermelhos e verdes
    bailam intensos
    dentro das nossas vísceras o verde

    CLIII

    o verde
    nas unhas que escavam a terra
    o verde afunda
    em lutas que nunca terminaram
    lutas de verde

    CLX

    crescem as arvores
    os seus ramos encompridam
    entram pelas janelas
    pelas casas
    pelas salas
    brotam flores voam borboletas
    maiores de suas mãos
    nas paredes nos muros sobem plantas
    cresce grama e erva no chão de cimento
    saltam macacos
    cantam passarinhos e sapos

    CLXI

    I Pajurá os chama
    imitando o canto deles
    Jupicahy com a sua flauta
    compõe sons dos mais agudos
    soam os apitos
    batem forte os tambores,
    de dentro da terra
    os sons inspiram danças e evoluções

    CLXII

    o que tinha de estranho
    em ver crescer as plantas
    voar pássaros e borboletas
    em ver dançar animais e crianças
    crianças e animais juntos

    CLXIII

    «que bela festa»
    se dizia
    «que bela festa»
    enquanto a cabeça girava
    balançava de um lado para o outro
    como se quisesse dizer não
    não è somente uma festa

    Márcia Theóphilo – 1994